Na viagem da vida, curta o percurso

Quando eu era criança, nas viagens anuais para a praia com a minha família, eu não via a hora de chegar ao destino final. Já cheguei a ir de biquíni por baixo da roupa, enfrentando quase oito horas de viagem, só para não perder tempo quando estivesse em terras litorâneas. Apaixonada por mar que sou, descia do carro e já corria para um mergulho, antes mesmo de desfazer as malas.

O mar era mais do que o meu destino final, era a minha felicidade. Vivia o ano inteiro para esperar aquela semana em que podia passar de frente para o mar, de férias, sendo feliz inteiramente por sete dias. E aí, com a ânsia de chegar ao destino final, eu raramente curtia a viagem. O biquíni por baixo da roupa me incomodava, as paradas do meu pai para abastecer o carro me eram tão demoradas. Definitivamente, eu não curtia o percurso.

Depois que cresci, passei a enxergar a vida como as viagens anuais à praia. Para mim, a vida era um longo percurso, em que a felicidade só era encontrada no destino final. Esse destino era o trabalho que eu gostasse, um grande amor que eu iria encontrar, um sonho que eu pudesse realizar. Eu sempre coloquei metas e só me sentia feliz ao alcançá-las. Ora ora, na ânsia para chegar ao destino final, eu deixava de olhar para o percurso.

Deixava de fazer as pausas para o abastecimento. Afinal, assim como o carro precisa de combustível para continuar funcionando, nós precisamos de pausas para reabastecer a vida. Meu pai, sempre tão sábio, sabia bem disso. Nas pausas para abastecer, ele aproveitava para descansar da viagem, comer um docinho na conveniência, esticar as pernas, como ele mesmo dizia.

A vida também pede que estiquemos as pernas. Que curtamos as pausas para abastecer, não só porque elas são necessárias, mas também porque elas podem ser prazerosas. O percurso pode ser prazeroso, pode ser também o grande sentido do que é a tal felicidade. Aos poucos, eu venho entendendo que o destino final nem sempre é a felicidade plena. Esperar por ele é tão bobagem, quanto não curtir o caminho.

No meio da viagem, haverá pausas, imprevistos, rotas alteradas. O jeito é aproveitar para nos abastecer, tirar as pedras que insistem em aparecer no caminho e, claro, se preciso, recalcular a rota. O sentido da felicidade não é linear, não é uma jornada em que o pote de ouro se encontra ao final. Por isso, tem que se dar um jeito de aproveitar o meio, o caminho, o percurso.

Quanta saudade eu sinto das viagens à praia. Das lembranças nesses percursos que, por incrível que pareça, me marcaram mais do que o momento em que chegava de frente para o mar. Na viagem da vida, tento, a cada dia, fazer diferente: apreciar o caminho, as pausas, para que, no futuro, elas não sejam só uma lembrança de saudade.  

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