Desculpa, preciso de mim

Sempre fui uma criança e adolescente que deu um certo trabalho. Quando era bebê, chorava tanto que minha família achava que eu tinha algum encosto espiritual. Depois, na adolescência, tudo me afetava de forma muito intensa. Por não saber lidar com cada sentimento que surgia, eu estourava, explodia com raiva justamente com quem eu mais amava. Ou então, me fechava em tristeza por dias a fio.

Meu pai, no alto da sua leveza, brincava que, quando eu casasse, o marido iria me devolver. Eu ria junto com ele, concordando que eu não era assim tão fácil de lidar. No entanto, aquela brincadeira sem intenção ficou em mim, instaurada, marcada como se nunca mais pudesse sair. Desde sempre, tive medo de ser devolvida. Pelos coleguinhas da escola, pelos paqueras da adolescência, pelos relacionamentos da vida adulta.

Tinha tanto medo de perder o outro que, de alguma forma, eu acabava perdendo. Às vezes, porque esse medo ficava evidente, parecia desespero e assustava o outro, seja ele um amigo ou um menino que eu gostasse. Em outras vezes, por mais que tudo estivesse bem, eu me autosabotava e dava um jeito de trazer à tona a Isabela difícil, chorona e complicada da infância. Aí, o outro se assustava e também partia.

Uma única pessoa quis ficar. Mesmo sabendo todos os meus defeitos e questões. Ela quis permanecer, me amando ainda mais com todas as minhas imperfeições. Talvez porque as nossas imperfeições se completavam, promovendo um encaixe intenso, por vezes doloroso, mas que se encaixava. Essa pessoa já quis me devolver muitas vezes, assim como eu também o quis. Mas, no fim, algo nos puxava de volta ao outro.

Foi amor, não tenho dúvidas. Daqueles intensos, dependentes, arrebatadores. Mas também foi apego. Quando os altos e baixos esgotaram o sentimento, o apego ainda continuava ali. Apego à única pessoa que não queria me devolver. Apego à quem vestia minhas meias em dias frios e me colocava para dormir. Apego à quem sabia minhas questões mais profundas e, ainda assim, preferia ficar. De um jeito meio torto, às vezes, mas queria.

No fundo, eu me apegava à ideia de ser amada, talvez pela primeira vez, por alguém que não fosse a minha família. Alguém que me protegia de mim mesma, que me acolhia muito mais do que eu mesma me acolhia. No entanto, eu precisei partir. Abandonar o apego de ser amada pelo outro, quando, na verdade, eu ainda nem havia me amado. Abandonar o medo de ser devolvida, fazendo o que eu mais evitava: me devolvendo. Saindo de cena, partindo, deixando ir quem queria ficar.

Eu continuo aqui, na tentativa de me livrar da aprovação do outro. Da decisão do outro de me devolver ou não. Afinal, sou apenas eu que preciso me acolher ou não, independente do que aconteça. E, para que eu siga nesse processo, não tive outra escolha a não ser partir. Mesmo sabendo que talvez ninguém me ame mais, como essa pessoa me amou. Corro esse risco, esperando, do fundo do meu coração, que, um dia, seja eu a me amar muito mais do que qualquer outra pessoa. Preciso de mim.

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2 Comentários

  1. Paola says

    Amiga, que texto forte e lindo!
    Comecei a ler com angústia no peito sobre a fala do seu pai </3 mas que reflexão difícil e bonita. Precisamos de nós mesmas!
    E, amiga, ninguém nos ama da forma que já fomos amadas por outro. O amor também é único em cada relação ❤

    1. Isabela Nicastro says

      Sim amiga! Cada amor é diferente né! Por enquanto, sigo lapidando o meu! ❤🥰

      Que bom que gostou! 🙏🏻

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